Veneno Urgente


15/03/2012


Sobre o ciúme

Hoje vou escrever para você uma história que um vendedor me contou. Mas fique tranquilo, não foi aquele chato do Augusto Cury, que se intitula “vendedor de sonhos”, que me falou. Foi um vendedor muito mais legal. Você não tem ideia do que tem de vendedor fofoqueiro por aí. Fofoca não é território exclusivo das mulheres. Eles a-do-ram falar da vida alheia. Eu, que sou fã de uma boa história, fico só na espreita, esperando a hora de dar o bote. Fique agora com a história do Éder - preciso explicar que mudei o nome do personagem? Não, né? Que ótimo.

***

Éder é o típico vendedor boa praça: conversa com todo mundo, conta piadinhas bobas, sempre na esperança de conseguir tirar um centavo daqui e fechar uma grande venda ali. Atualmente deve estar beirando os 65 anos. Continua vendendo de tudo um pouco. Só que ninguém entende o porquê da esposa dele estar sempre com ele. Sempre mesmo. É ela quem atende ao celular. Ela fica do lado de fora dos clientes esperando ele terminar de atendê-los. Sempre por perto, marcando território, como um pinscher ensandecido. Não pense que Éder faz o tipo vovô gatão! Muito pelo contrário. Anda de calça jeans surrada, camisa de malha normal e cultiva uma barba digna do Papai Noel. Mas, como diz a minha mãe, “quem ama um feio, bonito lhe parece”.

O caso que vou contar se passou há uns 20 anos. Talvez seja por causa disto que a esposa de Éder seja uma espécie de sombra dele...

Vendedores sempre estão à procura de novas frentes de mercado. Boas oportunidades são encontradas nas feiras de produtos. Éder foi a uma. Nesta época ele morava nos arredores da cidade do Rio de Janeiro. A feira era longe, precisou ir de carro, não existiam celulares, GPS, redes sociais... Pra completar o quadro, choveu. Daquelas trombas d’água de arrasar. Quem conhece o Rio, sabe que, quando chove, tudo pára. O caos se instala.

Os galpões da feira foram inundados, produtos foram perdidos, chovia dentro do lugar, todo mundo ensopado. Éder, muito gente boa, resolveu oferecer carona para um colega vendedor. Só que o amigo estava de olho numa promotora de vendas e estendeu o convite para a moça. Moça que, ao sair do local, resolveu trocar de roupa. Tirou o uniforme completamente molhado e colocou numa sacola.

Éder, para ser gentil, deu uma tremenda volta para deixar a moça e o colega em casa. Eles moravam no mesmo bairro, mas era contra mão de onde ele precisava ir. Chegou em casa tarde da noite, cansado, com fome, úmido, mas satisfeito consigo mesmo de ter dado um empurrãozinho na vida amorosa do colega. Deu um alô para a patroa e só conseguia pensar em tomar um bom banho. O telefone de casa tocou, a esposa, obviamente atendeu. Era o amigo da carona. Éder atendeu ao telefone e o amigo disse que a moça havia esquecido uma sacola no carro dele, com o uniforme dela e queria saber se ele podia devolver. Era longe e ele estava cansado. Prometeu que, no dia seguinte, dava um jeito de encontrar com ele antes do evento, para devolver a roupa da moça. Foi tomar seu banho.

 A esposa dele, que sempre fuçava tudo, resolveu dar uma busca no carro. Sempre via manchas duvidosas, papéis incoerentes, tudo era motivo de desconfiança e um interrogatório digno dos porões da ditadura. Era muito ciumenta. Beirava o desvario. Para surpresa dele, ela aparece no banheiro aos berros, soltando palavrões que fariam qualquer pedreiro ficar envergonhado...

Tinha encontrado uma sacola com roupas de mulher molhadas dentro do carro... Tremia de ódio. Espumava. Parecia um animal feroz enjaulado. Não quis saber de conversa. Pegou uma tesoura e cortou a roupa em pedacinhos, enquanto soltava impropérios...

Depois de umas duas horas explicando que focinho de porco não era tomada, ela se acalmou e Éder teve que ligar para o amigo. Disse que a esposa havia picado a roupa da moça e que ela teria que ir trabalhar sem uniforme. Depois disso, Éder e a esposa sempre foram vistos juntos. Onde ele tirava o pé, ela colocava. E nessa obsessão doentia, eram felizes do jeito deles. 

Escrito por Flávia Rocha às 21h35
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